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O corretor de imóveis disse que era “um roubo”. Casal recém-casado, de 29 e 30 anos, recém-saído de seu apertado apartamento na cidade, com os olhos arregalados de amor, de futuro e de economias iniciais.
Um beco sem saída ensolarado. Grama verde como AstroTurf. Bandeiras americanas em casas pares. Cercas brancas nas probabilidades. Caixas de correio com números de latão idênticos. “Você vai adorar aqui”, a corretora sorriu, gesticulando como se estivesse vendendo o paraíso e não uma casa de dois quartos com um degrau deformado na varanda. “É uma comunidade.”
Eles se mudaram em uma segunda-feira.
Eles foram recebidos pelos vizinhos e todos pareciam simpáticos.
Na quarta-feira, os vizinhos trouxeram seis caçarolas. Todos diferentes, todos calorosos, todos pesados demais para recusar educadamente. Eles sorriram muito. Joan da casa ao lado segurou o rosto de Joleyn como se fossem irmãs há muito perdidas. “Você deve estar muito cansado da mudança”, disse ela. “Deixei chá de camomila na sua mesa de cabeceira. Ajuda com os nervos.”
Eles não lhe deram uma chave.
Na sexta-feira, Lucas saiu do chuveiro e encontrou Glenn, do outro lado da rua, sentado no sofá, folheando a correspondência. “Você se esqueceu de encaminhar parte disso”, disse Glenn casualmente, como se morasse lá. “Não se preocupe. Sinalizei os importantes.” Ele usava meias, mas não tinha sapatos.
Naquela noite, quatro vizinhos chegaram com vinho, sem serem convidados. “Ouvimos música através das paredes”, disse Linda. “Parecia solitário.” Eles ficaram até depois da meia-noite, rindo alto demais, tocando em cada livro das estantes, um deles folheando o diário de Joleyn como se fosse uma revista de mesa de centro. Quando ela o arrancou, ele sorriu. “Oh, eu só queria ver o que te motiva.”
Na manhã seguinte, uma guirlanda feita à mão estava pendurada na porta da frente. Flores, barbante, um pequeno coração de papel no centro com “BEM-VINDA FAMÍLIA” escrito em tinta vermelha. Ninguém reivindicou isso.
Então as coisas começaram a desaparecer. Não roubado. Apenas… me mudei. A escova de dentes de Joleyn acabou na gaveta de meias de Lucas. O controle remoto na geladeira. Uma mecha de cabelo – que não era deles – estava enrolada no travesseiro entre eles. Eles pararam de dormir bem. As paredes pareciam mais finas. O ar, mais pesado. Alguém deixou uma torta na bancada da cozinha certa manhã. Ainda fumegante. Nenhuma nota. Sem pegadas.
O cachorro de três casas abaixo começou a dormir no quintal. Joan disse: “Ele escolhe onde se sente seguro. Os animais sabem”.
Joleyn começou a trancar as portas. Lucas parou de mencionar quando viu sombras passando pelas janelas à noite. “Eles são simplesmente amigáveis”, disse ele uma vez. “Amigável não significa perigoso.”
Ela olhou para ele. “Também não significa seguro.”
Chegou ao auge em uma quinta-feira. Joleyn estava trabalhando em casa, com fones de ouvido, quando percebeu um movimento com o canto do olho. Ela olhou para cima e viu Joan no quintal, segurando uma tesoura de poda, aparando as roseiras com o cuidado de uma mãe cuidando de um filho. Um momento depois, Glenn entrou em casa com um Tupperware de sopa, gritando: “Frango e tomilho! Bom para dias nublados!” sem esperar por uma resposta.
Joleyn saiu para a varanda descalça, cabelo crespo e capuz do avesso. Sua voz cortou o ar. “Fique fora da nossa casa!” O silêncio foi instantâneo. A rua congelou como uma casa de bonecas. O carteiro, no meio do caminho, fez uma pausa e se virou. Glenn parou de se mover. Joan ergueu os olhos lentamente e piscou uma vez. “Estamos apenas tentando amar você”, disse ela.
Na manhã seguinte, todas as persianas da casa estavam abertas. Eles não os abriram.
Não há mais ondas. Chega de caçarolas. Chega de “bom dia”. Mas agora o silêncio tinha dentes. Um corvo foi pregado no carvalho em frente. Joleyn encontrou a palavra SOZINHO escrita no interior da caixa de correio. Lucas fingiu não ver.
A pressão aumentou. Joleyn começou a se trancar no banheiro só para respirar. Ela manteve o rádio ligado o dia todo. Lucas, que costumava brincar sobre o “cultinho perfeito”, agora ajudava a aparar sebes e falava sobre como os gramados de todos estavam “arrumados”. Certa manhã, as latas de lixo foram branqueadas e devolvidas à garagem, embora não as tivessem retirado. Lucas não mencionou isso.
Naquela tarde, Joleyn o encontrou consertando o sistema de sprinklers de Joan, sem camisa, sorrindo. Ela não disse nada. Ele disse: “Estou apenas sendo um bom vizinho”.
Naquela noite, ela fez uma mala.
Lucas ficou.
Ele começou a usar camisas pólo e calças cáqui. Ele se juntou ao conselho da HOA (Homeowners Association). Ele começou a correr. Ele nunca costumava correr. No churrasco seguinte, ele usou um avental que dizia Kiss the Cook e virou hambúrgueres com uma das mãos enquanto a outra segurava uma cerveja. Os vizinhos riam de tudo o que ele dizia. Eles sorriram como se tivessem vencido. Ninguém mencionou Joleyn. Ninguém nunca fez isso. Nem mesmo o marido.
Mas numa tarde nublada, um carro alugado empoeirado parou na esquina. Estacionado. Motor zumbindo. Ela estava sentada lá dentro, com óculos escuros e rosto ilegível. Ela o observou.
Lucas estava em uma nova varanda, entregando uma bandeja coberta de papel alumínio para um jovem casal nervoso. A mulher agarrou o braço do marido. Lucas sorriu.
“Estamos muito felizes por você estar aqui”, disse ele. E ele quis dizer isso.
Crédito: Meadow Steele
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