Tempo estimado de leitura — 4 minutos
Não durmo direito há meio ano.
Não desde a noite em que levaram o corpo da Sra. Ellery para fora do apartamento dela num saco preto com fecho de correr.
Ela morava sozinha.
Ela estava quieta.
Às vezes ela assava pão demais e deixava fatias quentes na minha porta.
E às vezes, tarde da noite, ela gritava.
Todos no prédio se acostumaram com isso — seus “terrores noturnos”, como os médicos os chamavam.
Mas na noite em que ela morreu, os gritos pararam.
Exatamente seis dias.
Na sétima noite, às 2h14, ouvi novamente.
Um grito cru, dilacerante e de cortar a garganta me arrancou do sono.
“AJUDA! POR FAVOR! ME AJUDE!”
Eu me levantei. Meu quarto estava escuro, mas os gritos – eu conhecia aquela voz. Veio da parede que eu dividia com o quarto dela. Seu quarto VAZIO.
Pressionei meu ouvido na parede de gesso.
“Alguém… por favor… não consigo ver… está tão escuro…”
Meu sangue gelou.
“Sra. Ellery?” Eu sussurrei, instantaneamente me odiando por isso.
A voz não me reconheceu. Ele apenas ficava implorando, soluçando, lamentando. Então, tão repentinamente quanto começou, parou – foi interrompido como se alguém tivesse silenciado.
Não dormi novamente naquela noite.
_______
Na manhã seguinte, liguei para o proprietário.
“Alguém está no apartamento dela”, eu disse. “Eu ouvi gritos.”
Ele exalou bruscamente. “A casa dela está trancada. Ainda lacrada. O legista não divulgou.”
“Então alguém invadiu!”
“Ninguém invadiu”, ele retrucou. “Se você ouviu alguma coisa, não foi da unidade dela.”
Ele desligou.
Naquela noite, às 2h14, os gritos voltaram. Dessa vez eu gravei. Eu ouvi cada segundo – mas quando ouvi de manhã…
Nada. Nem um sussurro.
Como se os gritos só existissem quando queriam ser ouvidos.
_______
Na 12ª noite após o início, vi algo novo.
A luz do quarto dela acendeu.
Eu congelei. O apartamento estava vazio há seis meses. Sem eletricidade. Sem acesso. Ninguém tocou nele desde que ela morreu.
Mas agora a luz estava acesa.
Entrei no corredor. A porta do apartamento dela ainda estava selada com fita policial, completamente intacta.
De repente, a gritaria explodiu novamente – tão alta que fez vibrar a parede do corredor.
“AJUDE-ME! POR FAVOR, NÃO ME DEIXE AQUI!”
Bati as duas mãos contra a porta dela.
“Sra. Ellery! Quem está aí?!”
A gritaria foi sufocada instantaneamente.
Então, do outro lado da porta, um sussurro chegou tão perto que pude ouvir a respiração por trás dele:
“… você me deixou.”
Eu tropecei para trás.
_______
No dia seguinte, encontrei seu obituário online.
June Ellery, 72 anos. Sem filhos. Nenhuma família próxima. Causa da morte: insuficiência cardíaca.
Mas havia outra coisa.
Um comentário, postado há três dias:
“Alguém a ouviu gritando ultimamente? Eu ainda ouço.”
Um segundo:
“A alma dela não foi embora. Ela está presa.”
Um terceiro:
“Se você mora ao lado, CORRA.”
_______
Eu não corri.
Eu deveria ter feito isso.
_______
Três noites depois, a gritaria mudou.
Não vinha mais da parede.
Estava vindo de dentro do meu quarto.
“NÃO FECHE OS OLHOS!” ela gritou.
Eu me joguei da cama, caindo no chão.
“POR FAVOR—ME AJUDE—NÃO ME DEIXE AQUI—POR FAVOR—”
Sua voz rasgou a sala, ricocheteando nas paredes, me circulando como uma tempestade.
Então parou.
Uma respiração tranquila roçou meu ouvido.
“Eu encontrei você.”
_______
Depois disso, os gritos não seguiram mais um tempo.
2h14.
4h52.
13h03.
Às vezes, logo quando eu entrava em casa vindo do trabalho.
Mas a pior parte não foram os gritos.
Foi a batida.
Tarde da noite, meio adormecido, ouvi um som fraco. Lento. Pesado.
Bater
Bater
Bater
Eu segui o som, com o coração na garganta.
Estava vindo de DENTRO do meu armário.
Agarrei a maçaneta com dedos trêmulos.
“Sra. Ellery?” Eu sussurrei.
Houve um longo silêncio.
Então uma voz, quebrada e úmida de desespero, sussurrou lá de dentro:
“…por favor, não me coloque de volta…”
Soltei a maçaneta instantaneamente e tropecei para trás.
Coloque-a de volta ONDE?
_______
Comecei a pesquisar “gritos após a morte”, “fantasmas presos nas paredes”, “assombração de vizinhos”. Nada me preparou para o que aprendi a seguir.
Encontrei um recorte de notícias antigo sobre o prédio. Há vinte anos, um inquilino desapareceu sem deixar vestígios. Visto pela última vez entrando no apartamento 2B.
Apartamento da Sra. Ellery.
Rumores diziam que ela costumava trancá-lo em um forro atrás de seu armário “para mantê-lo seguro”.
Eles nunca encontraram seu corpo.
Mas seus terrores noturnos — seus gritos — começaram no mesmo ano em que ele desapareceu.
Ah, Deus.
Ela não era a vítima.
Ela era a carcereira.
E agora ELA estava presa na escuridão em que uma vez prendeu outra pessoa.
_______
A noite passada foi a pior.
Acordei às 2h14 – como sempre – mas desta vez não houve gritos.
Apenas um raspar suave e rítmico atrás da minha parede.
Como unhas.
Então a voz dela veio, mas não frenética. Não implorando.
Calma. Muito calmo.
“Você é gentil”, disse ela. “Você me escute. Ninguém mais ouviu.”
Encostei as costas na cabeceira da cama, tremendo violentamente.
“Por favor, pare,” eu sussurrei.
O raspar ficou mais alto. Mais perto.
“Não quero mais ficar sozinha no escuro”, ela murmurou. “Deixe-me ficar com você.”
“Não, não, você não pode…”
A voz dela me interrompeu.
“Não se preocupe. Eu sei como passar.”
O drywall começou a BULGE para fora, como se algo estivesse empurrando de dentro.
Uma marca de mão pressionada na tinta.
Então um segundo.
Depois um rosto.
O rosto dela.
Pele cinza. Boca aberta de gritos intermináveis. Olhos pretos e vazios.
Ela empurrou a parede, esticando-a como pele molhada.
“Eu encontrei a saída…”
Eu corri. Peguei meu telefone, minhas chaves, nem calcei os sapatos.
Enquanto eu descia as escadas, seu grito final quebrou o silêncio atrás de mim:
“NÃO ME DEIXE AQUI SOZINHO!”
_______
Estou escrevendo isso de um hotel a uma hora de distância.
Eu não voltei.
Mas a recepção ligou há alguns minutos.
Uma mulher veio ao saguão perguntando por mim.
Gritando meu nome.
Eles disseram que ela parecia:
“Cerca de setenta. Pálida. Tremendo. Como se ela tivesse ficado presa em algum lugar escuro por muito, muito tempo.”
Eu não sei o que fazer.
Eu não sei para onde ir.
Mas eu sei de uma coisa:
Se você ouvir seu vizinho morto gritando…
Não responda.
Não dê ouvidos.
E aconteça o que acontecer—
Não deixe que ela encontre você.
Crédito: Sussurro da meia-noite D
Declaração de direitos autorais: A menos que explicitamente declarado, todas as histórias publicadas em Creepypasta.com são de propriedade (e estão protegidas por direitos autorais) de seus respectivos autores e não podem ser narradas ou interpretadas sob nenhuma circunstância.