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A chuva batia na janela do meu quarto como um punhado de cascalho, lançando sombras distorcidas nas paredes. Já passava da meia-noite. Nós quatro – Caitlyn, Jade, Serena e eu – estávamos amontoados em uma fortaleza de cobertores e travesseiros no meu chão.
Meus pais estavam fora no fim de semana, deixando minha casa inteiramente por nossa conta. Aos dezessete anos, uma casa de graça geralmente significava uma festa, mas esta noite optamos por uma festa do pijama clássica e à moda antiga.
A tempestade lá fora havia cortado a energia há uma hora. Ficamos com nada além de uma vela de baunilha meio derretida e o brilho fraco e desbotado de nossos telefones para combater a escuridão. O ar na sala parecia pesado e carregado, a atmosfera perfeita para o que estávamos fazendo.
“Minha vez.” Caitlyn disse, sua voz caindo para um sussurro baixo e rouco.
Jade gemeu, apertando mais o saco de dormir em volta dos ombros e disse:
“Por favor, me diga que não é outra história de fantasmas sobre uma órfã vitoriana, Caitlyn. Quero algo que realmente me dê arrepios.”
“Confie em mim, Jade.” Caitlyn respondeu, seu rosto iluminado por baixo pela chama da vela, fazendo seus olhos parecerem vazios e escuros. “Este não é sobre fantasmas e não aconteceu em 1800. Aconteceu exatamente há dezessete anos, aqui mesmo em nossa cidade.”
Serena se inclinou para frente, seu interesse foi despertado, e ela disse:
“Espere, uma lenda local? Como é que nunca ouvimos falar disso?”
“Porque a cidade fez tudo o que pôde para enterrá-lo.” Caitlyn disse suavemente. Ela estendeu a mão para sua mochila, que estava apoiada no pé da minha cama, e abriu o zíper apenas alguns centímetros antes de olhar para nós. “Eles queriam que todos esquecessem isso, mas algumas coisas deixam uma mancha que você não pode simplesmente limpar.”
Eu a observei de perto. Caitlyn agiu um pouco estranha a noite toda. Ela geralmente era a mais quieta do nosso grupo, do tipo que ria das piadas dos outros em vez de comandar a sala; mas esta noite havia uma energia estranha e intensa irradiando dela.
“Vá em frente, Caitlyn.” Eu disse, cruzando os braços. “Vamos ouvir.”
Caitlyn respirou fundo, a chama da vela tremeluzindo descontroladamente enquanto ela falava.
“Foi em maio de 2009.” ela começou. “O baile do ensino médio foi realizado no antigo ginásio, aquele que agora foi abandonado e fechado com tábuas na Knight Street. Naquela época, foi a maior noite do ano. O tema era ‘Uma Noite nas Estrelas’. O indiscutível casal de ouro da turma do último ano era um cara chamado Kyle e sua namorada, Joan.”
Serena ofegou baixinho e disse:
“Espere, Kyle? Você quer dizer o nome gravado nas antigas arquibancadas?”
“Exatamente.” Caitlyn assentiu. “Kyle era o garoto de ouro. Atleta famoso, bonito, amado por todos os professores. Joan era linda, popular e totalmente dedicada a ele. Ou assim todos pensavam. O melhor amigo de Kyle era um cara chamado Warren. Os três eram inseparáveis. Eles faziam tudo juntos.”
Caitlyn fez uma pausa, deixando o som do trovão lá fora preencher o silêncio. A casa rangeu, a madeira velha gemeu sob a pressão do vento. Senti um arrepio repentino e inexplicável em meus braços.
“Naquela noite”, continuou Caitlyn, com a voz ainda mais baixa, “Kyle e Joan foram eleitos Rei do Baile e Rainha do Baile. Foi um deslizamento de terra total. Eles ficaram no palco, os holofotes atingindo-os, coroas colocadas em suas cabeças e faixas de cetim em seus peitos. Todos estavam torcendo. Kyle parecia estar no topo do mundo; mas logo após a coroação, Joan escapou. Ela disse a Kyle que estava indo ao banheiro para consertar a maquiagem.”
“Deixe-me adivinhar.” Jade interrompeu, tentando parecer corajosa, mas sem conseguir esconder o tremor em sua voz. “Ela não foi ao banheiro.”
“Não.” Caitlyn disse, seus olhos fixos nos de Jade. — Ela não fez isso. Vinte minutos se passaram e Kyle começou a procurá-la. As danças lentas estavam começando e ele queria dançar com sua rainha. Ele olhou no corredor, no refeitório, no estacionamento. Nada. Finalmente, Kyle decidiu verificar o galpão de equipamentos atléticos atrás da academia. Era um lugar escuro e isolado onde os alunos às vezes iam tomar uma bebida ou… fazer outras coisas.
O vento bateu com um galho de árvore na minha janela, fazendo todos nós pularmos. Caitlyn nem sequer vacilou. Ela apenas continuou olhando para a chama da vela.
“Kyle abriu a pesada porta de madeira do galpão.” Caitlyn sussurrou. “O luar brilhava através de uma pequena janela e bem ali, em uma pilha de tatames de luta livre, ele os viu. Não era apenas um cara qualquer. Era Joan, e ela estava dormindo com Warren… seu melhor amigo.”
“Oh meu Deus!” Serena respirou fundo, colocando as mãos sobre a boca.
“Kyle não gritou.” Caitlyn disse, sua voz assustadoramente calma. — Ele não emitiu nenhum som. A história diz que algo dentro de seu cérebro simplesmente quebrou. Ele limpou ao meio. A traição era grande demais para sua mente processar. Kyle saiu do galpão de costas e fechou a porta. Ele não chorou. Ele apenas caminhou até a sala de manutenção nos fundos do ginásio. Ele sabia que o zelador guardava suas ferramentas lá.
Um silêncio pesado caiu sobre meu quarto. A luz ambiente de nossos telefones expirou, deixando-nos completamente dependentes da única vela que estava morrendo.
“O que Kyle pegou?” — perguntei, completamente dominado pela narrativa, apesar de tudo.
“Kyle pegou um machado de corte pesado e enferrujado.” Caitlyn disse. — Ele voltou para o ginásio. A música estava tocando alto, uma balada lenta e romântica. As luzes estavam diminuídas, girando em azuis e roxos. Ninguém notou Kyle entrando na pista de dança a princípio. Não até que ele levantou o machado e o enterrou no ombro da primeira pessoa por quem ele passou. Um júnior chamado Marcus.
Jade soltou um grito agudo.
“A música continuou tocando enquanto as primeiras pessoas morriam.” Caitlyn contou, com um tom desprovido de emoção, como um repórter lendo as notícias. “A multidão pensou que era uma brincadeira, uma façanha teatral; mas então o sangue começou a espirrar sob as luzes estroboscópicas. Então, os gritos começaram. Foi um gargalo total. Kyle estava perto das portas duplas principais, balançando descontroladamente. Ele não era mais o menino de ouro. Ele era um monstro, coberto de sangue, com os olhos arregalados e vazios.”
“Alguém tentou impedir Kyle?” Eu perguntei, meu coração martelando contra minhas costelas.
“Algumas pessoas tentaram detê-lo, mas morreram instantaneamente.” Caitlyn disse. “Kyle abriu caminho no meio da multidão, procurando por apenas duas pessoas. Ele matou dez estudantes inocentes apenas tentando abrir caminho. Dez adolescentes, feitos em pedaços no chão do ginásio. Finalmente, as portas do corredor dos fundos se abriram. Warren e Joan entraram correndo, tendo ouvido os gritos. Eles pararam no meio do caminho, pois ficaram horrorizados com a carnificina.
Caitlyn se aproximou do centro do nosso círculo e disse:
— Kyle os viu. Ele soltou um rugido que soou como um animal moribundo e se lançou direto para Warren. Warren tentou se defender, levantando os braços, mas Kyle balançou o machado com uma loucura pura e cheia de adrenalina. Ele tirou as mãos de Warren primeiro, então… Bem, ele acabou com ele bem ali na frente de Joan. Joan estava congelada, escorregando no sangue de seus colegas de classe. Kyle se virou para ela em seguida. Ele levantou o machado acima de sua cabeça, pronto para dividir sua rainha em duas.
“Como ela sobreviveu?” Serena perguntou com a voz embargada.
“O instinto de sobrevivência é uma coisa poderosa.” Caitlyn disse. “Quando Kyle desceu o machado, Joan se esquivou para o lado. A lâmina cravou-se profundamente no chão de madeira, ficando presa. Naquela fração de segundo em que Kyle tentava libertar a arma, Joan estendeu a mão e pegou um pedestal de microfone de metal pesado do palco. Com tudo o que lhe restava, Joan balançou-o, acertando Kyle diretamente na têmpora.”
Caitlyn fez uma pausa, respirando lenta e profundamente e disse:
“Kyle caiu no chão, inconsciente. A polícia chegou minutos depois. A tragédia foi tão horrível, tão profundamente prejudicial para a comunidade, que os anciãos da cidade fizeram um pacto. Eles subornaram a mídia, selaram os registros policiais e forçaram os sobreviventes a se afastarem ou ficarem quietos. Kyle foi trancado em uma instalação psiquiátrica de segurança máxima para criminosos insanos, onde permanece até hoje, completamente catatônico, e Joan… Joan desapareceu. Ela mudou de nome, mudou-se para um estado diferente e tentou fingir que aquela noite nunca aconteceu.”
A história terminou, mas o terror na sala não se dissipou. Todos nós ficamos ali sentados, completamente chocados. A brutalidade da história, combinada com a entrega misteriosa de Caitlyn, nos deixou paralisados.
“Uau, Caitlyn!” Eu disse, tentando limpar o nó repentino na minha garganta. — Isso foi… incrivelmente sombrio. Você realmente inventou tudo isso? Os detalhes eram insanos.
“Eu não inventei.” Caitlyn disse calmamente.
Jade soltou uma risada nervosa e disse:
“Qual é, Caitlyn. Dez pessoas assassinadas em um baile de formatura há dezessete anos? Teríamos encontrado algo sobre isso online. Alguém teria postado um TikTok ou um tópico no Reddit sobre isso.”
“Eu te disse.” Caitlyn respondeu, seus olhos completamente desprovidos de calor. “A cidade o enterrou; mas minha família manteve registros.”
Antes que qualquer um de nós pudesse perguntar o que ela queria dizer, Caitlyn se abaixou e colocou a mochila no colo. O zíper se abriu com um barulho agudo e alto que me fez estremecer. Ela enfiou as mãos profundamente na bolsa.
“Joan tentou jogar tudo fora.” Caitlyn sussurrou, tirando um objeto da bolsa e colocando-o suavemente no chão, no centro do nosso círculo, bem ao lado da vela. “No entanto, descobri onde ela os escondeu. Em uma caixa trancada no sótão.”
A luz da vela tremeluziu sobre o objeto. Minha respiração ficou presa na garganta.
Era uma coroa de baile de plástico, com a pintura falsa prateada lascada e descascada. Entrelaçada na coroa havia uma faixa de cetim desbotada que antes era branca, mas agora tinha uma cor amarelo-acastanhada escura e repugnante. Meu cérebro levou um segundo terrível para perceber o que eram aquelas manchas.
Era sangue antigo e seco.
A coroa estava rachada e a faixa estava fortemente salpicada com os macabros restos de uma matança. As palavras PROM QUEEN 2009 ainda eram pouco visíveis sob a crosta escura.
“O que… o que é isso?” Serena choramingou, puxando as pernas até o peito, o rosto pálido.
“É a coroa dela.” Caitlyn disse, sua voz completamente monótona. “A coroa de Joana. A coroa da minha mãe.”
A sala pareceu cair dez graus. Olhei para a faixa manchada de sangue e depois para Caitlyn. As peças do quebra-cabeça em minha mente tentavam se encaixar, mas a imagem que formavam era horrível demais para ser aceita.
“Sua mãe?” Eu gaguejei, minha voz tremendo violentamente. “O nome da sua mãe é Joan… oh meu Deus.”
“Joana Vance.” Caitlyn disse, um sorriso fraco e assustador tocando os cantos dos lábios. — Ela mudou seu sobrenome antes de me ter. Ela pensou que poderia escapar do sangue. Ela pensou que poderia escapar da memória de Kyle e do que ele fez.
Jade estava tremendo agora, olhando para a porta do meu quarto como se estivesse pensando em fugir, e disse:
“Caitlyn, isso não é engraçado. Guarde isso. Por favor.”
“Você nem conhece a melhor parte da história ainda.” Caitlyn disse, ignorando Jade completamente. Ela se inclinou para frente, o sorriso aterrorizante se espalhando por seu rosto, os olhos arregalados e refletindo a pequena chama da vela. “Veja, minha mãe sempre me disse que eu era um milagre. Ela me disse que meu pai morreu em um acidente trágico antes de eu nascer e, tecnicamente, ela não estava mentindo.”
Eu não conseguia falar. O ar foi completamente sugado dos meus pulmões.
“Eu fiz as contas há muito tempo.” Caitlyn sussurrou, sua voz praticamente sibilando acima do som da chuva torrencial. “A noite do baile foi há dezessete anos. Todos nós temos dezessete anos agora. Nasci exatamente nove meses depois daquela noite horrível no ginásio.”
Ela estendeu a mão e tocou o sangue seco na faixa de cetim com uma unha bem cuidada.
“Kyle não enlouqueceu só porque sua namorada o traiu.” Caitlyn disse, olhando diretamente nos meus olhos. “Ele enlouqueceu porque percebeu que isso já estava acontecendo há muito tempo. Eu não era o bebê de Kyle. Joan já estava grávida naquela noite. Sou o produto do caso. Sou filha de Joan… e de Warren, o melhor amigo, a quem Kyle despedaçou.”
Jade, Serena e eu ficamos paralisados de horror absoluto e paralisante. A tempestade lá fora continuava, mas dentro da sala o tempo pareceu parar completamente. Olhamos para a coroa manchada de sangue no chão e depois olhamos para Caitlyn, nossos olhos arregalados de choque e um pavor primitivo e arrepiante.
A garota quieta que pensávamos conhecer se foi, substituída pelo legado vivo e respirante de uma matança de dezessete anos.
Crédito: Noel Haynes II
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