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Elsie estava nos degraus da frente do shopping, seu cabelo castanho balançando ao vento enquanto ela olhava para a tempestade que se desvanecia, as nuvens iluminadas pelo pôr do sol. O ar ainda cheirava a petricor e concreto molhado, um aroma nostálgico e terroso que a trouxe de volta à primeira vez que veio aqui. Elsie tinha apenas quatro anos quando visitou o Dana Mall pela primeira vez. Naquela época, o shopping estava cheio de vida. Inúmeras lojas alinhavam-se nas paredes, vendendo variedades indescritíveis de roupas, livros, brinquedos; qualquer coisa que uma menina da idade dela pudesse ter pedido. Ela se lembrava vividamente do suave tamborilar da chuva no telhado quando ela batia nas janelas de vidro acima dela. Já se passaram 23 anos desde aquele dia.
O shopping está vazio agora. As janelas e portas estão fechadas com tábuas de madeira apodrecidas, dobrando-se com o próprio peso. A segurança desistiu de patrulhar o shopping anos atrás. A grama lá fora cresceu selvagem e descuidada, cheia de vida em um forte contraste com o imponente complexo ao lado dela. O shopping é uma casca do que já foi, como atropelamentos em decomposição, mofando e murchando na beira de uma estrada deserta.
Elsie sorriu suavemente sob o respirador e se virou, olhando para as portas fechadas com tábuas à sua frente. “Faz anos que não vou a este lugar”, ela murmurou para a câmera montada em sua cabeça. Ela tirou a mochila e colocou-a no concreto seco e sombreado abaixo dela antes de pegar um pé-de-cabra. As tábuas das portas rasgaram-se com facilidade depois de apodrecerem de dentro para fora durante muitos e muitos anos. Elsie deslizou o pé-de-cabra na mochila, olhando para as tábuas de madeira quebradas agora no chão, onde continuariam até que alguém interferisse. Ela pegou sua mochila e colocou-a sobre os ombros antes de entrar no shopping. Ela cuidadosamente entrou na escuridão, acendendo a lanterna para iluminar seu caminho.
O shopping foi profanado pelo tempo. O ar cheirava a mofo e gordura velha quando ela entrou na praça de alimentação vazia. Decalques vagamente legíveis cobriam as paredes, rasgados e rasgados por anos de vazamentos e intempéries. Carrinhos abandonados no corredor central estavam cobertos de escombros, seus restos deixados exatamente como estavam no dia em que o shopping fechou. Os passos cuidadosos de Elsie ecoaram pelo shopping vazio como tiros, zombando da multidão movimentada nos corredores antes lotados. O calor lá dentro a pressionava como um peso físico, fazendo-a suar dentro da jaqueta impermeável de mangas compridas. Duas escadas rolantes estavam congeladas como escadas estáticas, com os corrimãos de borracha rachados e cobertos de sujeira. Manequins estavam nas vitrines escuras das lojas, cobertos de poeira de décadas de quietude.
Elsie entrou mais fundo no shopping, deixando a memória guiá-la mais do que as placas desbotadas do diretório. Ela passou pelos restos mortais de lojas de roupas onde uma vez implorou aos pais que parassem, com as prateleiras desabadas sob os tetos danificados pela água. Uma loja de brinquedos ainda exibia caixas desbotadas pelo sol na vitrine da frente, enquanto uma livraria cheirava a papel inchado e mofo, e suas páginas espalhadas farfalhavam sempre que uma brisa passava por uma clarabóia quebrada no alto. Ela narrou calmamente para a câmera montada em sua cabeça, comentando sobre vitrines desabadas, estranhos trechos de musgo subindo em azulejos polidos e o ocasional rastro de pegadas de animais desaparecendo na escuridão.
Quanto mais ela se afastava da praça de alimentação, mais estranho o shopping se tornava. Ela atravessou o complexo antes de tropeçar em um corredor de funcionários escondido atrás de um par de pesadas portas de serviço. Este corredor apresentava menos degradação em comparação com o resto do shopping, mas suas paredes duras ainda apresentavam sinais de rachaduras e instabilidade. As luminárias fluorescentes no teto estavam apagadas, mas o teto estava praticamente intacto e o chão continha um pouco menos de detritos do que os corredores públicos atrás dela.
Sua lanterna finalmente pousou em uma porta de madeira no final do corredor e ela parou no meio do caminho.
Tudo parecia errado.
As paredes ao redor estavam manchadas por décadas de danos causados pela água, a pintura descascando em cachos quebradiços, mas a porta em si usava uma camada lisa de tinta para madeira de carvalho escuro que refletia a lanterna com um brilho opaco. As dobradiças brilhavam com óleo fresco em vez de ferrugem. Não havia marcas no chão que sugerissem que alguém o estivesse usando. Estava simplesmente limpo.
Ela hesitantemente deu um passo em direção à porta, seus passos ecoando pelo shopping vazio. Cada instinto lhe dizia para se virar. O silêncio parecia se aprofundar a cada passo, até que até o leve rangido das alças da mochila soava intrusivo. O facho da lanterna tremeu levemente sobre a madeira polida, revelando uma maçaneta de latão sem manchas, como se alguém a tivesse limpado apenas algumas horas antes. Ela estendeu a mão, a mão enluvada pairando logo acima da maçaneta. Por um longo momento, ela simplesmente olhou para ele.
“Isso… definitivamente não deveria estar aqui,” ela sussurrou para a câmera, sua voz soando anormalmente alta dentro do corredor estreito.
Ela envolveu os dedos ao redor da maçaneta.
Virou sem esforço.
A trava clicou com um estalo metálico que ecoou pelo corredor.
Elsie engoliu em seco e lentamente puxou a porta para dentro.
As dobradiças moviam-se em completo silêncio.
Era uma pequena sala cúbica de concreto. Uma única luminária incandescente pendurada no teto, sua luz amarela iluminava uma pequena parte da sala. Muito vagamente, no fundo esquerdo da sala, algo está sentado em uma cama recém-arrumada. É um manequim. Completamente branco, sem rosto e imóvel. Suas juntas esféricas são visíveis do outro lado da sala, como uma boneca articulável.
Não fala. Ele não se move.
Elsie olha para o manequim, com o corpo imóvel. Eventualmente, ela entra na sala, parando bem na frente do manequim, observando suas características.
Não fala. Ele não se move.
“Que porra é essa…” ela murmura para si mesma. Algo está errado com isso. Ela não consegue identificar o quê, mas algo está errado com isso. Profundamente errado.
“O que você está?” ela pergunta. Ela não espera uma resposta, é claro. É um manequim.
Algo aconteceu. Ele respondeu. Nem verbalmente, nem mentalmente, nem fisicamente; simplesmente acontece. Simplesmente é. Ela sabe disso.
‘qualquer coisa que você quiser que eu seja.’
O manequim não falou. O manequim não se mexeu.
A respiração de Elsie fica presa na garganta. A resposta… ela não os ouviu. Não os senti. Não pensei neles. Mas eles estavam lá. Tão claro como o dia. As palavras se instalam em sua mente, não ditas, mas conhecidas.
“Qualquer coisa?” ela questionou apreensivamente.
Nada acontece. O manequim ainda está lá, sentado na cama.
Não fala. Ele não se move.
As palavras “qualquer coisa que você queira que eu seja” correm em sua mente. Como pode ser esse o caso? É apenas um manequim. Lágrimas brotam de seus olhos de medo. Ela aperta o punho com força até os nós dos dedos ficarem brancos.
“Se você pode literalmente ser ‘qualquer coisa que eu quiser’, então que tal começar deixando crescer uma maldita cara.” Ela diz trêmula.
O manequim ainda está lá, sentado na cama. Há um rosto. De mulher. Ela não consegue ver, mas está lá.
Não fala. Ele não se move.
Elsie pisca. Ela fica olhando. O manequim é uma placa branca em branco, mas de alguma forma… um rosto. O rosto de uma mulher. Ela pode senti-lo, senti-lo pressionando sua consciência, características impossíveis mapeadas por trás daquela superfície plástica lisa. Nenhum músculo se contrai, nenhuma pálpebra tremula, nenhum lábio se separa. É só… ali. Ela fecha os olhos com força, pressiona as palmas das mãos contra eles até ver estrelas. Quando ela os abre novamente, o manequim ainda é apenas um manequim. Mas o conhecimento permanece — como a memória muscular de um rosto que não existia.
Elsie deu um passo lento para trás.
O manequim permaneceu sentado na cama, perfeitamente imóvel sob a luz quente do pendente. A impressão impossível de seu rosto permaneceu em sua mente, recusando-se a desaparecer. Ela não conseguia descrevê-lo – nem seus olhos, nem sua boca, nem o formato de seu nariz. Os detalhes se dissolveram no instante em que ela os alcançou, deixando apenas a certeza de que existia um rosto onde não deveria existir.
Seu pulso martelava dentro de seus ouvidos.
“…Não.”
Ela riu uma vez.
Um som frágil e incerto.
“Não. Não é assim que funciona.”
Ela ergueu a lanterna, varrendo o facho pela sala. Paredes de concreto aparente. Piso liso. Uma cama de solteiro com lençóis brancos. Sem janelas. Não há aberturas grandes o suficiente para uma pessoa. Sem portas escondidas.
Nada.
Sua respiração desacelerou gradualmente.
“Estou tendo alucinações.”
As palavras pareciam bastante razoáveis.
“Mofo. Monóxido de carbono. Alguma coisa.”
Ela os repetiu até que quase pareceram verdadeiros.
O manequim não falou.
O manequim não se mexeu.
Ainda assim, o quarto já não parecia tão pequeno como quando ela entrou. As distâncias pareciam incertas. Os cantos estavam mais distantes do que deveriam. O teto estava um pouco alto demais. Cada vez que sua lanterna se afastava do manequim, ela se via incapaz de lembrar exatamente onde ela estava.
Ela continuou olhando para trás para se tranquilizar.
Estava sempre exatamente onde ela esperava.
Exatamente.
Ela engoliu em seco.
“…Estou indo embora.”
Ela recuou em direção à porta sem se virar.
Um passo.
Depois outro.
O corredor adiante permaneceu exatamente como ela o deixou, engolido pela escuridão.
Ela atingiu o limiar.
Parou.
Algo a puxou.
Não fisicamente.
Foi mais sutil do que isso.
Como esquecer a palavra final de uma frase.
Ela franziu a testa.
“O que…”
A câmera em cima de seu capacete emitiu um som eletrônico silencioso.
Sua luz de gravação piscou em vermelho.
Bateria fraca.
Ela instintivamente estendeu a mão para bater nele.
Quando sua mão baixou novamente, ela percebeu que não conseguia se lembrar por que tinha vindo aqui.
Não apenas o quarto.
O Shopping.
A cidade.
Ela se lembrou de dirigir.
Chuva.
O cheiro de pavimento molhado.
Então…
Nada mais se encaixa.
Ela olhou para sua mochila.
Parecia estranho.
Como se outra pessoa o tivesse embalado.
Suas próprias luvas pareciam estranhamente grandes.
Sua respiração ecoou dentro do respirador.
Ou talvez a respiração de outra pessoa.
“…Olá?”
A palavra soou estranha.
Ela não tinha certeza de quem era a voz.
O silêncio respondeu.
O manequim não falou.
O manequim não se mexeu.
A gravação continuou.
Mais tarde, os investigadores recuperariam a câmera do lado de fora da porta.
A filmagem estaria perfeitamente intacta.
Mostrava Elsie entrando na sala.
Examinando o manequim.
Ficar completamente imóvel por horas em completo silêncio.
Então-
Sem aviso—
A câmera caiu no chão.
Quando a imagem se estabilizou, a câmera ficou de lado no chão de concreto.
Sua lente apontava para a cama.
A mochila estava onde havia caído.
A lanterna girou uma vez antes de parar, iluminando a metade inferior do manequim com uma luz branca pálida.
Não houve passos.
Nenhum grito.
Sem interrupção na gravação.
Elsie se foi.
As equipes de busca vasculharam cada centímetro do shopping abandonado.
Cães policiais não encontraram rastros.
Nenhuma pegada saía da sala além das que levavam para dentro.
Não há saídas escondidas.
Não há túneis colapsados.
Nenhuma evidência de que ela esteve lá.
Nada.
Meses depois, as imagens chegaram a cantos obscuros da Internet.
Alguns telespectadores insistiram que o manequim havia virado a cabeça.
Outros alegaram que sua postura mudou entre os quadros.
Os analistas de vídeo demonstraram que nada disso era verdade.
Quadro a quadro.
Pixel por pixel.
Nada se mexeu.
Nenhuma explicação jamais foi aceita porque nenhuma explicação jamais se encaixou.
O quarto nunca foi encontrado.
O shopping ainda estava morto.
A chuva vazava pelas claraboias quebradas.
As árvores forçaram suas raízes sob fundações rachadas.
O mundo seguiu em frente.
Nas profundezas do prédio abandonado, atrás de uma porta de carvalho escuro que parecia nunca envelhecer, uma única luz incandescente continuava acesa.
A sala está vazia agora.
O manequim não falou.
O manequim não se mexeu.
Crédito: BirdInAWell
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