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A viatura levantou poeira ao descer Ashbury Lane, uma das últimas ruas de Seneca Vale que alguém ainda chamava de lar. O delegado Dale Hargreaves observou a propriedade Vesper emergir pelo para-brisa, que já foi o orgulho da cidade, agora um monumento podre a dias melhores.
“Provavelmente nada”, murmurou o xerife Hargreaves, mais para si mesmo do que para o filho. “Betty Kromwell liga semana sim, semana não para falar de alguma coisa. No mês passado, eram guaxinins no lixo. No mês anterior, adolescentes no gramado.”
“Ela disse tiros desta vez”, Dale ofereceu. “E gritando.”
“Ela também disse que viu Elvis em um cruzeiro em 1992.” O xerife parou na propriedade e desligou o motor. “Ainda assim, tiros são tiros.”
Dale saiu para o calor do verão, já suando através do uniforme. Dez anos na polícia e ele nunca sacou a arma fora do alcance. Sêneca Vale não tinha mais muita criminalidade, difícil de roubar de quem não tinha mais nada.
O matadouro foi fechado em 1989, depois que os investigadores descobriram que o escoamento envenenava tudo. As colheitas morreram. As pessoas ficaram doentes. A família Vesper, proprietária da fábrica há gerações, fechou-a durante a noite e retirou-se para a sua propriedade. A maioria das famílias fugiu depois disso. Os que ficaram eram demasiado pobres ou demasiado teimosos para partir.
Agora a cidade era um cemitério com um punhado de moradores respirando. — Dale, dê a volta nos fundos e verifique o celeiro — disse seu pai, ajustando o cinto da arma. — Vou tentar pela porta da frente. E filho? Os Vesper não gostam de visitas. Fique quieto, a menos que encontre alguma coisa.
Dale assentiu e atravessou o gramado coberto de mato. Vidro quebrado estalou sob suas botas. Metal enferrujado projetava-se das ervas daninhas como ossos quebrados. O celeiro ficava atrás das portas da casa principal escancaradas, a pintura verde descascando em tiras, estrangulada por trepadeiras que pareciam pulsar com o calor.
Morcegos rodopiavam pelo telhado numa nuvem espessa e agitada.
“Isso não está certo”, Dale murmurou. Os morcegos não enxameavam assim à luz do dia. Não mexi nesses números.
“Departamento do Xerife!” A voz de seu pai veio da frente da casa. “Alguém em casa?”
Nenhuma resposta. Dale se aproximou do celeiro, a mão indo para o coldre. O enxame de morcegos mudou, uma sombra viva que obscurecia trechos do céu.
“Você está vendo alguma coisa aí atrás?” seu pai ligou.
Só morcegos, pai. Muitos deles. A voz de Dale falhou ligeiramente. “Mais do que eu já vi.”
Três batidas fortes ecoaram na porta da frente. Então a voz de seu pai novamente, agora mais dura: “Sr. Vesper, se você estiver aí, preciso que se abra. Recebemos relatos de tiros.”
Um estrondo dentro de casa. Depois outro. Então silêncio.
“Estou entrando!” o xerife gritou.
Dale ouviu a porta ceder e ouviu seu pai entrar cambaleando. Por um momento, tudo ficou quieto. Então veio o tiro. “Pai!” Dale começou a correr, com vidros e destroços esquecidos. Ele atravessou a porta da frente e encontrou seu pai esparramado na base da escada, com sangue acumulando embaixo dele.
“Tantos olhos…” o xerife sussurrou, olhando para o nada. “Assistindo… tantos assistindo…”
Suas palavras se dissolveram em murmúrios incoerentes.
Então o som de uma janela quebrando no andar de cima cortou o silêncio. O rádio de Dale estalou. “Unidade 12, qual é o seu status? Recebemos relatos de tiros disparados.”
Ele pegou o rádio. “Oficial caído! Preciso de reforços na propriedade Vesper, agora!”
“Entendi. Faltam vinte minutos para o EMS.”
Vinte minutos. Dale apoiou o pai contra a parede, verificando o ferimento na cabeça, sangrando muito, mas respirando com firmeza. A casa ao redor deles foi destruída. Espelhos quebrados. Porta-retratos quebrados, os rostos nas fotografias arrancados, riscados como se alguém tivesse tentado apagá-los completamente.
Movimento para cima. Um som úmido e arrastado.
Dale sacou o revólver e começou a subir, cada degrau rangendo sob seu peso. O cheiro o atingiu até a metade de uma doçura espessa e podre que fez seus olhos lacrimejarem.
O patamar do segundo andar estava coberto de animais mortos. Dezenas deles gambás, guaxinins e alguns gatos selvagens dispostos em um círculo irregular. Mas eles não estavam simplesmente mortos. Seus corpos estavam cheios de buracos, feridas de vários tamanhos que davam à sua pele a aparência de uma colmeia.
Algo havia se enterrado neles. Ou fora deles.
Uma porta estava entreaberta no final do corredor, através da qual uma luz pálida se espalhava. Dale se aproximou lentamente, o revólver em punho.
O quarto estava cheio de poeira. Na cama estava o jovem Jeremy Voss, o viciado da cidade. Marcas de agulha subiam pelos dois braços. Espalhadas pelos lençóis estavam as ferramentas de seu vício: colheres, isqueiros, tubos de borracha.
“Jeremy?” Dale se aproximou. “O que aconteceu aqui? Onde estão os Vésperos?”
Jeremy não respondeu. Não respirei. O rádio de Dale entrou em erupção com estática. “Dale, o que está acontecendo aí? Fale comigo!”
Ele pegou o fone. O corpo de Jeremy convulsionou.
Começou como um tremor, depois tornou-se um tremor violento. Seu estômago inchou, ondulando como se algo sob a pele estivesse tentando passar. Sua garganta inchou grotescamente.
Dale tropeçou para trás. “Não… não, não, não”
O peito de Jeremy se abriu. Asas negras surgiram do ferimento em um jato de sangue e vísceras. Morcegos saíam de seu torso e de sua boca, abrindo caminho através das órbitas oculares. Dezenas deles, depois centenas, gritando enquanto enchiam o ar com o som de carne rasgada e batida de asas.
Dale gritou e correu.
Ele subiu as escadas a toda velocidade, o enxame fervendo atrás dele. O facho de sua lanterna captou vislumbres de dentes, olhos prateados, corpos tão compactos que formavam uma única massa contorcida.
Ele caiu nos últimos degraus e sentiu algo estalar em seu peito. Uma costela, talvez duas. Seu pai havia partido, apenas restava um rastro de sangue que levava à porta aberta.
As janelas explodiram para dentro. Vidro e lascas de madeira choveram sobre ele enquanto mais morcegos inundavam a casa.
Dale se jogou pela porta da frente e entrou na viatura, fechando-a com força. Três morcegos o seguiram. Eles rasgaram seu rosto e suas mãos antes que ele conseguisse esmagá-los contra o painel, seus corpos quebrando com estalos úmidos.
Lá fora, o mundo escureceu.
O enxame desceu sobre o veículo como uma nuvem negra, bloqueando o sol. Eles bateram contra as janelas com impactos individuais, primeiro, depois com marteladas constantes que fizeram o carro inteiro estremecer. O para-brisa ficou em teia de aranha. Os pneus estouraram um por um. Dale pegou o rádio. “Aqui é o delegado Hargreaves! Preciso de ajuda imediata! Mande todo mundo!”
Apenas estática respondida.
O para-brisa cedeu. Dale subiu no banco de trás, abriu o porta-malas e se jogou para dentro, fechando-o no momento em que o vidro explodiu na cabine.
Na escuridão, ele podia ouvi-los. Milhares de asas batendo contra metal. O carro balançou e gemeu sob o peso deles.
Ele pressionou as mãos sobre os ouvidos e orou.
Eventualmente, a exaustão o arrastou.
Dale acordou em silêncio.
Silêncio completo e sufocante. Sem grilos. Sem vento. Nenhum zumbido distante da interestadual. Apenas sua própria respiração irregular no escuro.
Ele abriu o porta-malas, com a pistola na mão.
A viatura foi destruída, as janelas foram destruídas, os assentos rasgados, sangue por toda parte. Mas os morcegos tinham desaparecido.
Ele saiu noite adentro. Estrelas enchiam o céu acima de Ashbury Lane, mais do que ele já tinha visto. As luzes da rua estavam escuras. Tudo estava escuro.
Ele olhou para baixo.
O chão ao redor do carro estava coberto de morcegos mortos. Centenas deles, talvez milhares, formando um tapete de corpos retorcidos que se estendia nas sombras.
Então ele ouviu.
Um som semelhante ao de um trovão, mas rítmico. Deliberar. O bater de asas enormes.
A viatura gemeu e tombou quando algo enorme pousou em cima dela.
Dale se virou lentamente.
Uma sombra encheu o céu acima dele, apagando as estrelas. Ele não conseguia ver claramente e sua mente se recusava a processar a forma, mas ele conseguia ver os olhos. Dezenas deles. Centenas. Prateado e sem piscar, observando-o com uma fome antiga.
Os Vesper não tinham um matadouro. Eles estavam alimentando alguma coisa. O celeiro, era onde eles estavam escondendo esse tempo todo.
Garras como foices perfuraram seus ombros, levantando-o do chão. Uma bota caiu quando seus pés deixaram a terra. As estrelas giravam no alto. O vento gritou em seus ouvidos.
Acima dele, impossivelmente vasto, uma boca aberta, repleta de dentes, olhos e uma escuridão mais profunda que a própria noite.
Dale tentou gritar, mas o som foi engolido pelo estrondoso bater de asas quando a coisa que dormia sob o Vale Seneca por gerações finalmente o recebeu em casa.
O rádio da viatura em ruínas estalou uma, duas vezes e depois silenciou.
Na Ashbury Lane, nada se movia. As luzes da rua permaneceram apagadas. E pela manhã, quando a polícia estadual finalmente chegasse, encontraria apenas um uniforme vazio, uma única bota e uma cidade que não aparecia mais em nenhum mapa.
Crédito: XTHA_TIN_MANX
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