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Heather se viu na cama, incapaz de mover um músculo – tentando ao máximo mover o braço e acordar o marido dormindo ao lado dela, mas sem sucesso. Ela estava com paralisia do sono – um fenômeno sobre o qual havia lido, mas nunca havia experimentado até então. Ficava assustada por ficar ali deitada, indefesa, mas ela se assegurou de que aquilo não poderia durar para sempre. Em algum momento, ela acordaria. Tudo o que ela precisava fazer era esperar que tudo acabasse.

Enquanto ela esperava, uma sombra escura pairou sobre ela. Ela pensou que devia ser seu marido David, vindo acordá-la, mas quando a figura se aproximou, ela viu seu rosto. Algo tão horrível que ela não conseguia dizer o sexo ou mesmo se era humano ou não. Seus olhos esbugalhados olharam para ela, e a criatura sorriu sinistramente.

Heather queria gritar, mas ainda não conseguia fazer nada para impedir. Ela estava apavorada. Ela sentiu o peso da criatura deitada em seu peito enquanto lentamente começava a violá-la. Ele apalpou seu corpo e deslizou as mãos por baixo de suas roupas. Ela fechou os olhos e gritou internamente, rezando para que a provação acabasse, fosse real ou uma alucinação.

Por fim, o despertador na mesa de cabeceira do casal acordou os dois. “Bom dia,” David murmurou, silenciando o alarme. Heather pulou da cama, desconfiada dele. “Você… fomos… íntimos ontem à noite?”

David parecia genuinamente confuso. “Eu gostaria. Você deve ter sonhado com isso.”

Heather entrou no banheiro e vomitou na pia. David não pôde evitar ficar um pouco ofendido. A vida sexual deles já estava perdendo frequência e Heather havia se tornado emocionalmente distante dele. Eles precisavam de uma longa conversa sobre seu relacionamento, mas com Heather doente e David se preparando para o trabalho, não havia tempo.

Mais tarde naquele dia, Heather estava sentada na sala de Jane, segurando uma xícara de chá entre as mãos. Jane, alguns anos mais velha, observou-a em silêncio. Heather só havia se mudado para o subúrbio alguns meses antes — recém-casada e ainda em fase de adaptação —, enquanto Jane morava na casa vizinha há anos, ali enraizada pela rotina e pela familiaridade.

Heather hesitou, depois balançou a cabeça. “Eu não deveria. Não tenho me sentido bem ultimamente… E tive um pesadelo horrível ontem à noite.”

Jane respondeu: “Eu costumava ter pesadelos recorrentes, mas depois eles pararam”.

Heather perguntou: “Sério? Você sabe o que os fez parar?”

“Acho que foi ter filhos”, explicou Jane. “Eles desistiram na noite em que cheguei pela primeira vez. Agora ele os pega – acorda chorando como se eu de alguma forma tivesse passado a maldição para ele. Sei que tudo isso parece uma superstição ridícula, mas ainda me sinto culpado.”

Heather olhou para o chá. “Para ser sincero, Jane… eu nem sei se quero mais filhos… acho que não tenho aquele instinto maternal que você tem.”

Jane enrijeceu ligeiramente. “Você conversou com David sobre isso?”

Heather balançou a cabeça. Depois de fazer Jane prometer segredo, ela confessou que estava pensando em se divorciar – voltar para a cidade, retornar ao trabalho de escritório, recuperar a vida que já teve.

Jane pegou a mão dela. “O que quer que você decida, sua felicidade tem que vir em primeiro lugar.”

Naquela noite, David estava deitado na cama assistindo televisão. Ele desligou quando ouviu alguém mexendo no banheiro adjacente.

“Heather? Você está bem?”

“Estou bem”, ela respondeu, com a voz fraca. “Só me sinto mal de novo.”

Atrás da porta trancada, Heather estava sentada no vaso sanitário, olhando para o teste em sua mão trêmula. Foi positivo.

A escolha que ela vinha evitando de repente se fechou ao seu redor.

Heather hesitou sobre o que viria a seguir, escondendo a notícia de David – por enquanto.

Uma noite, um mês depois, enquanto ela vestia um suéter largo para esconder o primeiro inchaço, um arrepio passou por sua barriga – como dedinhos testando a pele por dentro. Ela congelou, com a mão espalmada, mas passou.

Heather passava seus dias mecanicamente, escondendo seu corpo em constante mudança sob suéteres enormes e pijamas largos. David notou a distância crescendo entre eles, o silêncio onde antes vivia a intimidade. Ele tentou alcançá-la, desesperado para consertar o que não entendia.

Uma tarde, ele disse suavemente: “Talvez devêssemos tentar ter um filho”, pensando que isso poderia animá-la.

O rosto de Heather se contraiu. Ela se virou sem responder.

No dia seguinte, David voltou para casa mais cedo com flores. Heather não estava lá. Ele mesmo os colocou em um vaso, esperando que suavizassem a noite.

Quando Heather finalmente chegou, ela parecia abalada e pálida. Ela disse que teve uma consulta médica, sem dar detalhes.

Ela viu as flores e desabou.

David puxou-a para seus braços. “Vou me esforçar mais”, disse ele. “Eu prometo.”

Ela chorou não de gratidão, mas de tristeza e culpa.

Naquela noite, enquanto estavam deitados na cama, David abordou o assunto de ter um filho novamente. Antes que Heather pudesse se desviar, um som percorreu o quarto: um bebê chorando, fraco, mas inconfundível.

“Você ouviu isso?” Heather sussurrou.

“Lá fora”, disse David, abrindo as cortinas. A rua abaixo estava vazia.

O lamento parou.

David saiu para olhar. Heather ficou para trás, ligando para Jane, perguntando-se se um de seus filhos teria se afastado. Jane verificou todos os quartos. Todos estavam dormindo.

“Tem certeza que ouviu?” Jane perguntou.

Heather tinha certeza.

Quando a ligação terminou, Heather ficou sentada sozinha, olhando para a escuridão. A memória a invadiu: o procedimento realizado naquele dia, o choro que ela ouviu enquanto o médico levava seu bebê para a mesa médica para morrer. Tinha sobrevivido à tentativa de aborto – algo que Heather não sabia que era possível.

O médico garantiu a ela que seu bebê morreria sem dor dentro de seu corpo, mas, infelizmente, ele viveu o suficiente para que Heather ouvisse os gritos de agonia. “Uma ocorrência rara”, explicou o médico, deixando o recém-nascido gritar lentamente seus últimos suspiros na mesa médica atrás de uma cortina.

Os gritos pareciam frágeis para Heather, enchendo-a de culpa. Foi a primeira vez que ela se sentiu mãe, com uma forte vontade de confortar o bebê. O médico a conteve, dizendo: “Não permitimos que nossos pacientes vejam os restos mortais. É melhor assim”.

Ele tirou a máscara cirúrgica, revelando um sorriso sinistro por baixo. Um que parecia familiar.

Naquele momento, ela sentiu que estava na presença de algo maligno e sinistro – e percebeu que havia sido desencaminhada por isso.

Heather começou a soluçar novamente.

“Era meu bebê?”

O tempo passou. David não havia retornado.

Heather tentou ligar para ele, mas percebeu que seu telefone estava tocando lá em cima. O pânico aumentou.

Uma batida veio da porta da frente.

O alívio tomou conta dela, até que ela viu a faixa escura abaixo da caixa de correio, rastejando pelo chão do corredor.

O lamento recomeçou. Mais alto. Mais perto.

Heather sentiu a presença arrepiante daquele mal mais uma vez, espreitando em sua casa. A vingança veio em troca de uma vida por outra vida, embora Heather não estivesse preparada para morrer sem lutar.

Ela pegou a faca maior da gaveta da cozinha, com as mãos molhadas de suor.

“Eu sou maior que você,” ela sussurrou, forçando-se a avançar. “Você não me assusta.”

Embora isso a assustasse. Era o medo do desconhecido e do invisível – algo que ela não enfrentou na sala médica.

O rastro de sangue terminava no armário embaixo da escada. Pequenas marcas de mãos estavam manchadas de sangue na parte inferior da porta. Os gemidos fracos atrás da porta continuaram enquanto Heather corajosamente a abria e baixava a faca.

Ela esfaqueou repetidamente na escuridão – sangue respingando em seu rosto e em sua camisola minúscula. Ela parou de esfaquear, percebendo que o gemido havia cessado e apenas o som da carne molhada sendo perfurada permanecia. Ela usou o braço para limpar o sangue dos olhos; só então ela viu os restos sangrentos.

Mal iluminado, David estava deitado em posição fetal, com os olhos arregalados e o corpo dobrado sobre si mesmo.

Ela largou a faca e fugiu escada acima, desabando no canto do quarto. Ela digitou 999 em seu telefone, mas não conseguiu apertar a ligação.

“Demônios não existem. Bebês não rastejam pelas caixas de correio. Eles me colocariam em um hospício”, disse Heather para si mesma.

O lamento voltou, ficando mais alto, ecoando pela casa.

Heather sentou-se rígida na cama, o telefone escorregando de seus dedos enquanto algo se arrastava para dentro do quarto. Ele rastejou com esforço, seus movimentos bruscos e errados, cada centímetro para frente acompanhado por um soluço úmido e entrecortado. Uma mancha escura seguiu em seu rastro.

Quando ela finalmente se forçou a olhar, o terror a esvaziou.

A coisa era pequena, mas inconfundivelmente real. À medida que se aproximava dela, ela notou seus olhos – os mesmos olhos esbugalhados de seu sonho.

Ele chorava enquanto rastejava, um som de agonia constante, de algo inacabado e furioso por ter sido criado. Seus membros dobravam e raspavam enquanto ele se movia, mais animal que humano, mais demônio que criança.

E Heather soube então, com uma clareza doentia: aquela coisa não era um bebê.

É um demônio. Um changeling… E estava procurando por sua mãe.

Heather não conseguia se mover. Ela estava impotente paralisada de medo.

O miado ficou mais alto, mais desesperado, enchendo a sala até que não havia mais espaço para pensar. Chegou até ela.

Arrastou-se entre as pernas dela. Sua camisola oferecia pouca proteção contra isso.

O grito de Heather quebrou quando o som atingiu seu pico terrível.

Os dois se tornaram um novamente.

Crédito: John Stanworth

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