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A noite cheira mal.
Não apenas úmido, não apenas frio — estragado, como se o próprio ar tivesse ficado muito tempo dentro de algo morto e esquecido. Cada respiração reveste sua língua com o gosto de moedas velhas dissolvidas em podridão, metálicas e azedas, espessas o suficiente para grudar. A neblina não flutua; ele pressiona, oleoso e íntimo, deslizando pelo seu rosto como uma coisa aprendendo seus contornos. Ele entra em suas narinas, emaranha seus cílios, escorre pela sua garganta com a persistência de algo que o identificou como uma abertura e pretende usá-la.
Seus passos atingem os paralelepípedos.
Ou deveriam.
O som desaparece instantaneamente, devorado no meio da existência, como se a terra tivesse aprendido a comer barulho. O silêncio que o substitui não é vazio – é inchado, distendido até a dor. Ele incha em torno de seus ouvidos até zumbir, até parecer que a própria aldeia fechou os pulmões e está forçando você a sufocar com ele.
Então o ritmo se quebra.
Seus passos adquirem um segundo eco – mais pesado, mais úmido, arrastando-se atrás de você como um pano encharcado sendo puxado sobre uma pedra. Você para. Seu coração detona em seu peito, batendo contra os ossos com tanta violência que parece estrutural, como se pudesse rachar você por dentro só para escapar.
O eco dá mais um passo.
Algo se agarra ao seu tornozelo.
Não é uma escova. Não foi um toque acidental.
Um envoltório deliberado – frio, liso, adesivo – como uma manga afogada enrolada uma vez em volta da pele antes de afrouxar. O frio irrompe para cima em uma onda violenta, percorrendo músculos e medulas, deixando para trás um arrepio que queima com a agonia do congelamento se instalando.
Você avança, sufocando.
A névoa entra em sua boca, espessa e granular, com gosto de limalha de ferro e mofo. Seu estômago convulsiona. Sua visão fica manchada, o mundo perde brevemente a coesão, como se a própria realidade estivesse amordaçada.
Albrechtshain cerca você.
É familiar da mesma forma que um cadáver é familiar: reconhecível, mas grotescamente incorreto. As casas se inclinam para dentro, suas silhuetas desabando em direção à rua, janelas pretas olhando atentamente, molduras distorcidas em sorrisos tortos, semelhantes a dentes. O campanário da igreja atravessa a neblina como uma agulha cravada na carne, desaparecendo em um céu muito baixo, opressivo, ameaçando arranhar seu couro cabeludo.
O ar zumbia.
Não é som – pressão.
Como se algo vasto tivesse pressionado o rosto contra a aldeia e estivesse escutando através das paredes, paciente e curioso, saboreando cada vibração microscópica.
Você chega à sua porta.
O cabo é liso – muito mais frio do que o metal de inverno deveria ser. A umidade escorre ao longo dele, condensação que cheira levemente a sangue deixado por muito tempo ao ar livre. Seus dedos escorregam. Picos de pânico, ácidos e imediatos, inundam sua boca até sentir gosto de bile e cobre. Você abre a porta, bate-a, fecha o ferrolho e pressiona a coluna contra a madeira como se pudesse se fundir nela – tornando-se parte da estrutura, normal, imperceptível.
A casa exala.
Então a escuridão sangra por baixo da porta.
Não rasteja.
Ele se espalha, fino e deliberado, fluindo como óleo derramado por uma mão cuidadosa e amorosa. Ele se acumula nas tábuas do piso, engolindo luz, engrossando, respirando. A lanterna pisca, tossindo fracamente, seu brilho nauseante, ictérico. As sombras se estendem muito além de suas fontes, curvando-se em direção a cantos mais abertos do que a geometria permite.
O cheiro se aprofunda.
Cobre. Solo úmido. A decadência se esconde sob uma doçura tão enjoativa que faz seus olhos lacrimejarem – açúcar queimado, frutas maduras demais, o perfume de algo morto há muito tempo que se recusa a admitir isso. O ar fica viscoso, espesso como um xarope, pressionando suas costelas até que cada respiração pareça emprestada.
O sussurro começa.
Não entra pelos seus ouvidos.
Ele se desenrola dentro de seu crânio, macio e íntimo, roçando a parte de trás de seus pensamentos como dedos úmidos traçando a matéria cerebral exposta. Fala na sua voz – na sua cadência, nas suas pausas, no ritmo exato de como você hesita quando mente.
Não evoca memórias.
Isso confessa.
Cada mentira que você engoliu.
Cada pensamento que você enterrou vivo.
Cada palavra dita lentamente, com amor, saboreada.
Você tapa os ouvidos com as mãos até que as palmas latejam. O sussurro fica mais alto, mais úmido, mais próximo – até parecer que está pressionando a boca diretamente contra o interior dos seus pensamentos.
O corredor deforma.
As paredes incham e contraem, pulsando como órgãos. O chão ondula sob seus pés, suavizando, cedendo, como se estivesse esticado sobre algo enorme e adormecido. Seus passos ficam fora de ordem – você os sente antes de segui-los, depois de já ter se movido. O tempo se curva, dobrando-se como metal superaquecido.
Seu batimento cardíaco diminui.
Não acalma – arrasta.
Puxado para baixo em um ritmo antigo que vibra pela própria casa, sincronizando madeira, pedra e sombra em algo coeso e errado.
Há um espelho no final do corredor.
Você não se lembra de estar lá.
A certeza desse fato faz com que a náusea floresça violentamente em seu intestino.
Sua superfície é espessa e distorcida, como se o vidro estivesse derretendo. Seu reflexo fica atrás de você por uma fração de segundo – felizmente breve, mas longo o suficiente para que o terror floresça totalmente, quente e invasivo.
Você não pisca.
Porque no momento em que suas pálpebras pensam em fechar, o pânico explode atrás de seus olhos. A escuridão que espera lá não é descanso – é pressão. Dois poços ocos dentro do seu crânio, os locais onde nasce a visão, começam a inundar-se de medo, denso e sufocante, como se o próprio terror estivesse vazando para trás através dos seus nervos ópticos. Piscar parece uma rendição. Como abrir uma válvula e deixar alguma coisa entrar.
Seu reflexo levanta a cabeça antes de você.
Seus olhos não estão vazios – são ausências, vazios suaves que engolem a luz sem reflexo. Sua boca se estende impossivelmente, a pele se esticando demais, os dentes brilhando úmidos enquanto ele solta o sussurro em voz alta. O som é suave, íntimo, próximo o suficiente para que você sinta que ele escova os dentes por dentro.
Atrás dele, as sombras se abrem.
Ela não dá um passo à frente.
Ela se derrama para cima, saindo da escuridão como uma hemorragia sem fim. Suas bordas gotejam escuridão que devora a luz ao contato. Onde seus olhos deveriam estar há dois imensos vazios – buracos abertos na realidade, olhando diretamente através de você.
Quando o olhar dela toca você, a sala perde toda a fidelidade à forma.
O chão se liquefaz, inclinando-se como alcatrão. O teto desce, costelas de sombra respirando no ritmo de sua pulsação roubada. O tempo se estende até que o pânico se transforme em desespero – depois volta a momentos tão breves que machucam sua mente.
Rompimento de memórias.
Os quartos infantis se sobrepõem ao corredor. Rostos que você ama falam com bocas que não cabem neles. Acontecimentos que você nunca viveu pressionam contra você com o peso inegável da verdade. Você engasga, a gravidade puxando seu corpo lateralmente.
Você tenta correr.
O corredor se alonga infinitamente, zombando de você. A distância se recusa a existir. Sombras descascam das paredes, acariciando sua pele – cada toque congela, permanece, aprendendo você. Eles catalogam seu medo.
Ela está mais perto agora, sem se mover.
A pressão esmaga seu peito. A respiração se torna conceitual. O sussurro desliza diretamente para seus pensamentos, pesado e terno.
“Você se lembra”, ela murmura, divertida,
“Quando você mentiu para si mesmo pela primeira vez?”
Os espelhos se multiplicam.
Cada um mostra um final diferente.
Você estende a mão.
Seus dedos afundam no vidro como carne na lama fria.
A escuridão entra em você pacientemente.
Quando a neblina diminui – se é que isso acontece – você fica sentado muito quieto.
O espelho mostra algo que se parece com você.
Ele respira quando você esquece.
Sob as tábuas do piso, algo muda – lento, fluido, conteúdo.
O Schattenfrau não tem pressa.
Ela já começou.
Crédito: Rei Feminino
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