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A primeira vez que Alice viu aquele tinteiro, ela estava no velho sótão da casa dos avós, um quarto empoeirado e esquecido onde o tempo parecia ter parado. Estava escondido num canto escuro, meio escondido sob uma pilha bagunçada de livros velhos, cujas páginas amareladas cheiravam a mofo e melancolia.
O frasco era pequeno, feito de vidro grosso e opaco, com tampa de latão levemente oxidado e letras douradas na borda quase completamente desbotadas, como se os anos o tivessem corroído.
Alice não se lembrava de ter visto isso antes, mas algo naquele objeto exalava um encanto irresistível, quase como se a estivesse chamando.
A casa era uma construção de pedra bruta, isolada nas colinas da Úmbria, que ela e seu irmão mais novo, Matteo, haviam herdado após a morte repentina dos pais.
Alice tinha vinte e sete anos, Matteo vinte e três. Durante um mês e meio, eles moraram lá, tentando recompor suas vidas e trazer de volta à vida aquela casa cansada. Longe de tudo, sem sinal telefónico e sem eletricidade que muitas vezes os deixava no escuro, habituaram-se a uma existência suspensa, onde os sons da natureza e os rangidos da casa preenchiam o silêncio.
Alice, ilustradora freelancer e apaixonada por desenho desde criança, adorava se perder pelos quartos com seu caderno de desenho nas mãos.
Naquela manhã, seguindo mais o instinto do que a lógica, ela decidiu subir ao sótão em busca de inspiração entre os pertences antigos dos avós.
Foi assim que ela encontrou o pote. Sem pensar muito no assunto, ela o levou para o quarto. Ela pegou uma de suas canetas e mergulhou a ponta no líquido escuro, espesso, quase viscoso, que mais parecia alcatrão do que tinta de desenho normal.
Ela começou a desenhar linhas no papel, guiada por uma força que não parecia inteiramente sua. O que ganhou forma foi um rosto: fino, alongado, com órbitas profundas e vazias como abismos, e um sorriso exagerado, largo demais para ser humano.
Quando ela completou o último traço, uma gota de tinta escorregou da ponta da caneta para o papel, espalhando-se como uma mancha viva. E então aconteceu: os olhos do desenho se abriram lentamente e o sorriso se alargou ainda mais. Alice ficou paralisada. Suas mãos tremeram e a caneta caiu no chão.
Num instante, um fio de fumaça escura subiu do papel, serpenteando pelo ar com movimentos sinuosos, e com isso um sussurro penetrou em seus ouvidos e mente: “Você me deu forma”.
Alice recuou, seu coração batendo forte. Ela rasgou o papel em mil pedaços com mãos febris e jogou-o na lareira, onde o viu queimar, na esperança de apagar o pesadelo que acabava de começar. Mas a voz não desapareceu.
Naquela noite, ela não conseguiu dormir. Onde quer que ela estivesse, ela ouvia aquele sussurro. Cada vez mais insistente: “Você me deu forma”. Matteo percebeu imediatamente que sua irmã estava chateada. Seu olhar estava distante, seus movimentos rígidos. Mas quando ele perguntou o que estava acontecendo, Alice apenas balançou a cabeça. Ela não queria envolvê-lo.
Na manhã seguinte, movida por um misto de mal-estar e atração mórbida, ela voltou ao sótão. A jarra estava lá, mas completamente vazia. Porém, no chão havia uma longa faixa preta que parecia tinta, um rastro fino, mas claro, como se tivesse sido deixado por algo que se arrastasse para fora. O coração de Alice disparou. Sem pensar, ela seguiu a trilha.
A fila serpenteava escada abaixo, descendo lentamente até o andar inferior, serpenteando pelo corredor como uma sombra viva e inquieta. Chegou à sala, parando bem em frente à velha porta do porão. Sempre esteve fechada, lacrada desde os primeiros dias em que pisaram na casa. Eles tentaram abri-lo, sem sucesso. Mas agora a fechadura estava quebrada, o ferrolho quebrou como se algo o tivesse forçado por dentro.
Alice ficou imóvel por vários longos segundos. Parte dela queria fugir, ligar para Matteo, fugir da própria casa. No entanto, sua mão se moveu sozinha e abriu a porta.
O ar estava denso, frio, quase úmido. Um som profundo e áspero veio da escuridão, como uma respiração pesada e sobre-humana. Os olhos de Alice se acostumaram lentamente à escuridão, e foi então que ela viu: ao lado de um guarda-roupa de madeira velho e carcomido, na parede, estava escrito em tinta preta. “O OUTRO LUGAR ME ESPERA.”
Alice sentiu o sangue congelar em suas veias. Ela bateu a porta e bloqueou-a com uma cadeira pesada. O pânico tomou conta de sua mente, mas ela tentou se recompor. Ela voltou para Matteo, tentando agir normalmente, como se nada tivesse acontecido.
Naquela noite, enquanto lavava a louça na cozinha iluminada por uma lâmpada fraca, Alice ouviu a voz novamente. Mas desta vez não foi um sussurro distante. Estava bem atrás dela.
“Seu irmão também tem rosto. Posso aceitá-lo?”
A voz veio do nada, tão fina quanto um sussurro atrás dela. Alice virou-se abruptamente, prendendo a respiração. Não havia ninguém lá. Porém, na parede da cozinha, impresso com a mesma substância preta e pegajosa da tinta, havia agora um desenho: era o rosto de Matteo, mas distorcido, gritando e contorcido de dor.
Dois olhos arregalados e sem vida, a boca aberta num grito silencioso, congelado por toda a eternidade. Alice recuou, sentindo um arrepio percorrer sua espinha.
Em estado de pânico e culpa, ela começou a procurar respostas por toda a casa. Passou horas vasculhando armários, gavetas e baús velhos até que, no fundo de uma arca empoeirada do quarto de hóspedes, encontrou um volume surrado com capa de couro escurecido pelo tempo. Não trazia o nome do autor. Apenas um título gravado em letras góticas: “Sangue e Sinais”.
Abrindo-o com as mãos trêmulas, Alice descobriu que falava de tinta da alma, uma substância escura e misteriosa usada em séculos passados por bruxas e invocadores para escrever seus grimórios. Um fluido vivo, dotado de vontade própria. Um único traço, um simples esboço, bastava para lhe dar forma. Mas uma vez iniciada, a tinta não parou sozinha: continuou a alimentar-se da vontade do seu criador. As criaturas convocadas não eram meras imagens: eram entidades, familiares, presenças que buscavam apenas uma coisa, a liberdade. Para obter controle sobre aquele ser, era necessário um sacrifício. Uma alma.
Alice fechou o livro com força. Seu coração estava acelerado. Ela não sabia se acreditava, se aquelas páginas eram uma loucura ou uma revelação, mas uma coisa era certa: aquela criatura agora morava na casa deles. Ela podia sentir isso nos sons, nos sussurros que flutuavam pelos corredores escuros, nos espelhos que embaçavam por conta própria. O rosto que ela havia desenhado reapareceu em todos os lugares: apareceu nas paredes, nas superfícies brilhantes, até na água da pia. E quando Matteo desapareceu, Alice sabia que ela era a responsável.
Ela o encontrou no porão, no mesmo lugar onde viu pela primeira vez as palavras “O OUTRO LUGAR ME ESPERA”. Matteo estava ali parado, imóvel, com os olhos arregalados e cheios de terror. À sua frente estava a criatura, agora feita de carne, ou melhor, de líquido e ossos. Tinha um corpo longo e articulado feito de tinta espessa e pulsante, como se cada fibra vibrasse ao ritmo de um coração desconhecido. Seu rosto era idêntico ao primeiro desenho. Mas agora estava vivo e completamente gratuito. Seus olhos rolaram, sua boca sorriu. A criatura ergueu lentamente uma mão negra e translúcida e colocou-a no ombro do menino. “Agora ele é meu também.”
Alice gritou. Ela se lançou sobre o irmão, agarrou-o pelo braço e arrastou-o com todas as suas forças. A criatura não reagiu. Ficou ali, imóvel, como se desfrutasse do seu desespero, mas a casa reagiu. Começou a tremer, respirando como um enorme organismo vivo. As paredes incharam e dobraram-se como carne sob pressão. As pinturas se liquefaziam, as fotografias desbotavam. Todas as superfícies estavam invadidas por manchas escuras, como se tinta se espalhasse por toda parte, impossível de conter.
Fecharam todas as portas, trancaram as janelas, usaram tábuas, móveis, fita adesiva, cola. Mas foi tudo inútil. A tinta escorria pelas frestas, pelas frestas das paredes e até pelos interruptores de luz.
Matteo não falou mais. Seu olhar estava vago, sua pele pálida e fria. Ele estava respirando, mas era como se não estivesse ali. Alice o obrigava a beber e a comer, tentava sacudi-lo, ligava para ele constantemente. Mas ele parecia uma concha vazia, sem toda a essência, como se algo tivesse arrancado sua alma. E todas as noites, durante o sono, ela desenhava.
Não com canetas ou lápis, mas com os dedos. Ela traçou símbolos na parede, desenhos retorcidos, marcas obscuras, cada vez mais complexas e numerosas. Alice tentou apagá-los, raspando a tinta com espátulas e esponjas, mas a cada vez, sob a camada de gesso, só encontrava mais tinta.
O livro era claro: “Para deter a criatura é preciso quebrar sua forma. Não basta destruir o desenho: é preciso eliminar a fonte, ou seja, a própria tinta. Mas se ela já se fundiu com o mundo… ou com o corpo… então não há salvação.”
Alice começou a sentir isso dentro de si também. Quando ela chorava, suas lágrimas não eram transparentes: eram escuras.
Às vezes ela se pegava desenhando sem perceber, perdida em transe, a mão se movendo sozinha.
Uma noite, Matteo abriu os olhos. Ele olhou para ela, mas não era mais ele mesmo. “Ele me assusta menos agora. Ele é tudo. Ele está em todo lugar. E você… você é apenas um erro”, ele sussurrou como se estivesse em estado de euforia.
Alice engasgou, sentindo algo quebrar dentro dela, um fio invisível que até então a mantinha ancorada na esperança. Ela chorou, mas suas lágrimas não eram claras: eram escuras, grossas, como a própria tinta.
Matteo sorriu para ela, e aquele sorriso era idêntico ao da criatura. Não havia mais dúvidas: ele não era mais seu irmão.
Por um longo momento, Alice permaneceu imóvel. Então a dor se transformou em uma determinação fria, lúcida e implacável. Ela decidiu acabar com tudo.
Ela foi até a garagem e, com o coração pesado, pegou o galão de gasolina, aquele que abasteciam os equipamentos agrícolas. Voltou para cima e começou a derramar o líquido por todos os lados: nas escadas, nos corredores, nas paredes manchadas de símbolos, no chão ainda molhado de tinta. O cheiro acre encheu suas narinas, mas ela continuou implacável.
Matteo a observou sentada no sofá como um manequim vazio. Ele não falou mais. Ele não a impediu.
Talvez ele não fosse mais capaz de entender.
Quando todos os cômodos ficaram saturados de combustível, Alice abriu a caixa de fósforos. Ela pegou um e segurou-o entre os dedos por um momento eterno.
Então ela acendeu. Uma pequena e inocente chama dançou na ruiva. Ela se virou para o irmão. Um sorriso cruzou seu rosto, triste, quebrado, cheio de dor e arrependimento. Mas também amor.
“Perdoe-me, Matteo. Mas não vou deixar você com ele.” E ela deixou cair o fósforo.
Crédito: Jonathan Ferro
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